Ser médica psiquiatra de crianças e adolescentes é um imenso privilégio. De estar com o outro numa situação de crise ou de fragilidade. De caminhar lado a lado e de construir um espaço seguro e de confiança onde possam ser sentidos, pensados, vividos e elaborados os medos, angústias e tristezas. Mas também de viver e celebrar as conquistas e desafios superados, reescrevendo a história a várias mãos. De capacitar e potenciar a rede: os cuidadores, o suporte social e institucional – a aldeia para educar a criança. Mas também, de cuidar desta rede. De identificar precocemente (tanto quanto possível), tratar e reabilitar no âmbito da doença mental, promovendo o ganho de ferramentas, beneficiando da plasticidade neuronal e reduzindo o risco de cronicidade, morbilidade e mortalidade. É também uma grande responsabilidade. Cada consulta é uma oportunidade de fazer a diferença na vida de uma criança e da sua rede. Compete-nos utilizar o conhecimento científico executando-o através da mais poderosa das ferramentas, a relação. Reconhecendo os benefícios e pesando os riscos, tomando decisões informadas, baseadas na evidência e no superior interesse da criança ou adolescente. Diminuindo o estigma e promovendo uma melhor compreensão da doença mental, dos factores de risco e dos factores protectores, potenciando os últimos e reforçando a necessidade de estratégias globais de prevenção primária. E é sempre um enorme prazer. Pelo que também nós aprendemos e ganhamos na relação. Por sermos tantas vezes o farol da esperança em dias de mar atribulado. Por serem tantas outras eles a validarem que vamos no rumo certo.
Dra. Rita Teixeira